O sonho da morte de Cassandra - Ato I

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O sonho da morte de Cassandra

Ato I


Abra sua alma para que entre a morte em seu peito... e que você se devaneie assim como sua vida”


  ‘ __ Era uma noite fria comum de inverno aqui em Londres, as ruas escuras e silenciosas estavam temerosas a todo o pequeno som de passos e guincho de animais, eu caminhava sozinha como um corpo sortido pelo tempo, aqui e ali se ouvia pequenas vozes e risinhos nos becos negros da noite. Minhas pernas estavam bambas, como se tivesse acabado de transar, depois daquele amor rotineiro e gostoso. Algo escorria pelas minhas pernas e braços, um líquido espesso e escuro, algo parecido com o sangue, meu sangue...



...Eu caminho vagarosamente pelas vielas e praças a procura de um salvador, já não sinto meu corpo, minha cabeça está quase estourando e minhas veias pulsam no ritmo do meu coração, rápido, forte e dolorido, não sei dizer o porquê exatamente, algo estranho está acontecendo comigo. Antes de deitar estava tudo bem com meu corpo, foi só fechar os olhos para o meu mundo desmoronar por completo. Neste exato momento estou sendo seguida, eu sinto que estou. ’



Ao olhar para trás, para a única luz que serpenteava no poste acima do prostíbulo da esquina, eis que avista dois homens escorados na haste de concreto, trocando palavras e risos sem afeto algum, por um instante ela olha pra frente e num movimento brusco se assusta voltando sua atenção para os indivíduos moribundos que a segue. Agora estes caminham em meio à ruela de pedras em sua direção, quase correndo a mulher avança sem cautela alguma, com o perigo a suas costas ela não pensa em parar, porém os inimigos a encurralam num beco sem saída.



Uma coruja acinzentada canta uma canção mortal, as palavras recitadas são: “abra sua alma para que entre a morte em seu peito... e que você se devaneie assim como sua vida”, num súbito desespero ela sente aquelas garras a penetrando e arrancando suas vísceras, aqueles olhos amarelos fitando-a e suas asas cinza carregando seu ultimo traço humano. Agora conseguia distinguir o sangue escarlate espirrando de seu peito rasgado pela lâmina do homem, quando o punhal lhe espeta ela sente cada gota de sangue vazando pelo corte.



Como se fosse a ultima vez que suspirava, seu corpo tenta sugar todo o ar do planeta, como se isso a ajudasse. Nada que fizesse agora poderia lhe salvar, enquanto isso o homem apunhalava mais e mais, sem parar, como se ela fosse um pedaço de carne num abatedouro, as dores eram infernais, algo que jamais sentira na vida.



A coruja com asas cinza agora canta uma nova canção, porém ela já não mais conseguira ouvir, numa junção de pavor, medo e alívio ela acorda. A ave a fita da janela de seu quarto, agora com aquele olhar amarelo que vê além de sua alma. Após um fraco movimento ela levanta voo sem olhar para trás, enquanto a garota fica por alguns minutos debruçada sob o edredom se lembrando do sonho, do sonho da morte de Cassandra.