Dança com mortos - Devaneios de uma alma sombria #2
Eu, Henrique, não gosto muito de cemitérios. Em contrapartida adoro o sentimento que ele me faz sentir. Em sua aura pesada e mórbida que muitos detestam, eu me sinto vivo - não sei bem se essa é a palavra que busco, por hora sim. Tem um facto que aconteceu com um amigo de um amigo - eu sei, eu sei, vocês vão dizer que isso é lenda e que já ouviram esse inicio de história mais de mil vezes então, tirem suas próprias conclusões no final - envolvendo cemitério que eu gostaria de contar. Espero que gostem tanto quanto eu...
"Era por volta de 00:00 hora quando ele chegara no derradeiro lugar. Onde muitos acreditam ser assombrado ou mesmo celestial. O cemitério estava escuro e quieto, com exceção de pios de corujas. O óbvio do óbvio, até então tudo estava normal naquele cenário monótono. Júlio e seus amigos - essa é a palavra mais errada a se usar, mas por enquanto é essencial - sentaram em uma das lápides e começaram a beber, esse era o plano da semana: um poker sensual com as garotas.
Luanna, a gata que ele pegava toda a sexta estava com seus cabelos ondulados amarrados em um rabo de cavalo, estava linda - até a segunda garrafa de seja lá o que for que haviam levado. O certo era que ele contou que não lembrava o que havia bebido naquele dia, o que podia bem ser qualquer merda que vendiam no bar da esquina.
Nuvens envolviam uma grande lua prateada, eram como finos fios de seda. Aquele veludo acinzentado abraçava a dama da noite, e eles bebiam e riam e cantavam velhas canções da época de escola. Julio estava meio sonolento e resolveu recostar próximo a foto do túmulo enquanto a sua garota tirava a calça. Seus olhos não eram mais os mesmos, tudo o que via eram silhuetas escuras dançando ao som de uma musica em câmera lenta. Ele pareceu cochilar...
... O sino no alto da igreja toca anunciando a hora morta, um silêncio ainda maior tapava os ouvidos do rapaz como musgos em um pântano. Ao abrir os olhos ele viu algo se mexendo em meio aos caixões, algo acima das lápides. Anjos de mármore pareciam abrir suas asas e braços, e a chamar o homem. Seus olhos tentavam conversar com o cérebro, que não acreditava no que via, para alertá-lo do problema. Julio esperava que estivesse sonhando, mas se fosse assim ele já teria acordado com tamanho susto, pois não acreditava no que seus olhos viam. Até que algo além do limite racional acontecia mais a frente, na entrada dum jazigo monumental, Luanna o chamava para dançar, mas não era a garota de sexta, não mais...
Ele, mesmo com o coração lhe saltando boca afora, caminha em sua direção. Ouve uma musica etérea que soava calmamente em seus tímpanos o convidando a entrar. E Julio segue a garota mais pálida que já vira em sua vida.
Enquanto o lustre de cristal clareava o local as almas saiam para dançar, eram ondulantes figuras acinzentadas ao clarão de uma peça fantasmagórica e de beleza celestial. Cada passo que ele dava parecia atiçado, ele caminha por entre os presentes a passos lentos e remexendo seu cérebro a procura de respostas. Como seu grito não obteve eco ele decide voltar para a lápide, é mais como se ela o estivesse chamando. A volta para fora pareceu uma eternidade, apesar de no fundo Julio ter sentido que não se passou uma fração de segundos.
Ao chegar na entrada da sepultura festiva ele vê um bêbado delirando sobre a lápide que antes jogavam poker com as garotas, e o homem se parecia muito com ele. E o homem o fitou e tinha os mesmos olhos que ele. E ele olhou de volta. E era ele."
Quando ele acordou - isso foi o que ele me contou - teve uma sensação de djavú. Me disse também que até hoje não pisa um pé dentro de cemitérios. Que por isso - sonho ou devaneio ou delírio, chame do que quiser - nem foi ao enterro de seu pai na semana seguinte.
Espero que tenham gostado. E tenham uma Boa Sexta-feira!!!



